"Se as várias estimativas que temos recebido se concretizarem, em 40 anos ficaremos sem peixe"

- Pavan Sukhdev, economista e consultor da ONU, sobre o eventual esgotamento dos recursos piscícolas a nível mundial, em 2050 (In Visão 20/26 Maio 2010)

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

A delicadeza contra a força

Por vezes, o gozo da pesca obtém-se pescando de forma muito diferente da habitual. Por vezes, mais vale apanhar um peixe, do que muitos...

O dia de Março estava soalheiro, quente até para época e convidativo para um passeio no rio. Preparei o material de pesca ao achigã, embora o meu objectivo nesse dia fosse realmente outro. Se as condições o permitissem iria tentar capturar um barbo ou uma carpa, com o equipamento de pesca à pluma.
Quando o tempo está calmo, com pouco vento e os dias começam a aquecer é frequente ver nos nossos rios, carpas e barbos de respeito, passeando calmamente junto à superfície em busca de algum insecto caído na água.
Assim, é teoricamente possível pescar estes peixes quase da mesma forma que se pescam as trutas, ou seja com imitações de insectos confeccionados por nós, quer flutuem à superfície ou afundem lentamente.
Comecei por procurar nos pequenos recantos abrigados da ligeira brisa desse dia, sinais das movimentações dos ciprinídeos. Com efeito, num deles havia várias carpas mais pequenas em cardume e uma ou outra solitária de tamanho apreciável, patrulhando a superfície.

Embora tivesse no barco uma cana de pluma de linha #8 que uso para os achigãs e é mais poderosa, optei pela das trutas, de linha #5 e por isso mais ligeira, pela maior discrição na apresentação do isco ao peixe. Assim era possível a queda da pluma na água, sem assustar as carpas que vagueavam a dez centímetros da superfície
Empatei no terminal de 0.14mm, uma ninfa de cabeça dourada em anzol nº 16. Trata-se da imitação de um insecto que passa uma parte da sua vida na água e que depois sobe à superfície para passar à fase alada.
A carpa à qual dirigi o primeiro lançamento passou ao lado do isco sem sequer lhe dispensar atenção. Algumas das seguintes, não reagiam ou mudavam de direcção. Outras ainda, dirigiam-se ao isco mas no último instante recusavam-no, desviando-se.
Estas que se dirigiam ao isco e se desviavam no último instante, tinham a particularidade de me acelerar descontroladamente o ritmo do coração, tornando esta pesca pouco recomendável a cardíacos. E se elas eram grandes...
Apesar de tentar manter alguma esperança, uma vez que algumas se interessavam pelo isco, confesso que estava já com alguma falta de fé...
Nisto, detecto mais uma potencial captura que vinha na minha direcção, nadando paralelamente à margem. Faço o lançamento e puxo ligeiramente o fio para que a imitação se posicione quase à sua frente, caindo lentamente para não a assustar. O peixe direcciona-se para o isco e suga-o de imediato. Ferro instantaneamente. O peixe dispara numa corrida quase à tona e uma dezena de metros depois, efectua um enorme salto fora de água como se fosse um achigã!!!
Eiaaaa…incrível, uma carpa a saltar durante o combate... E é enorme!... digo atabalhoadamente enquanto tento dominar minimamente a situação.
Nisto, o peixe inicia uma corrida fortíssima em direcção ao meio do rio, afundando sempre e levando quase toda a “cauda de rato” que tenho no rudimentar carreto. Volta e mais volta, dá linha, recupera linha...
Quarenta minutos depois de ferrada, o Zé Pedro consegue finalmente içá-la no camaroeiro para dentro do barco. É bem grande, e uma pequena proeza para mim que sempre quis pescar desta forma muito especial, mas que dá um enorme prazer pelo que exige de nós. E uma carpa deste tamanho é um digno adversário para um equipamento tão frágil.

O nylon onde atei a pluma tinha segundo o fabricante uma resistência de 2.300Kg, sem nós, o que não era obviamente o caso. A carpa pesou na minha balança digital 3.400 kg, sendo após a sessão de fotografias, devolvida de imediato à água pelo Zé Pedro.

O que é que mais eu podia oferecer a este peixe, que me proporcionou quarenta minutos de adrenalina, senão a vida?

Texto da minha autoria, publicado no jornal "Correio da Manhã" de 26 de Maio de 2002
P.S. - Lamento a qualidade das fotos mas são "AD" -Antes do Digital!

3 comentários:

escalafobetico disse...

Gomes, meu amigo,
É uma surpresa muito boa mesmo, um belo peixe como esse numa linha #5. Por aqui não temos carpas com frequencia na natureza, mas as de lagoas particulares também pescamos com linhas entre #3 e #5.
Paabéns. As fotos mesmo de baixa qualidade deixam claro a beleza da pescaria.
Um grande abraço

Anónimo disse...

Gostei imenso do teu texto!
E mesmo eu, que não percebo nada de pesca nem de peixes, consegui sentir a adrenalina da situação.
Parabéns..., pelo texto e por dar vida a quem te dá alegria!

Beijinhos
São

Anónimo disse...

Muito bem! Belo peixe e relato! vascorocks