"Se as várias estimativas que temos recebido se concretizarem, em 40 anos ficaremos sem peixe"

- Pavan Sukhdev, economista e consultor da ONU, sobre o eventual esgotamento dos recursos piscícolas a nível mundial, em 2050 (In Visão 20/26 Maio 2010)

domingo, 13 de janeiro de 2008

A taínha


Desprezada por uns, procurada por outros, este peixe das nossas águas acaba por ser uma das espécies mais difíceis de pescar para os pescadores de mar.
A taínha é fundamentalmente uma espécie de água salgada. Encontra-se com facilidade em estuários de rios, molhes, cais e ancoradouros marítimos e zonas rochosas junto à costa. Encontra-se também a muitos quilómetros acima da foz dos rios, que mantêm ligação directa ao mar, isto é, sem barragens que lhe parem a subida. É por isso fácil pescarem-se taínhas, junto a Mértola, no Guadiana ou no Tejo, junto a Belver, a jusante da barragem com o mesmo nome, ou em outros locais de características semelhantes.
As espécies mais abundantes são três: a Chelon labrosus, identificável por possuir os lábios muito grossos, conhecida por taínha de lábios grossos ou liça. A Liza ramada, diferenciada da anterior pelos lábios mais finos, pela pequena mancha escura junto à raiz das barbatanas peitorais e cauda menos pontiaguda e a Liza aurata, vulgarmente chamada de garrento, identificável pela pequena mancha dourada junto ao opérculo e tonalidade geral amarelada.
De todas, a que atinge maior tamanho é a de lábios grossos ou liça, sendo vulgares as de dois a três quilos, alcançando contudo os cinco a seis. A fataça, de lábios finos, pode atingir os três, sendo esta a espécie que vulgarmente encontramos mais a montante nos nossos rios. O garrento raramente ultrapassa o quilo de peso.
Qualquer uma destas espécies é um poderoso lutador, quando preso no anzol. Gastronomicamente, não é dos peixes mais apetecidos.
A alimentação natural das taínhas baseia-se em pequenos organismos marinhos, algas, fitoplâncton, e detritos orgânicos de toda a espécie, incluindo os produzidos pelo Homem.
A taínha gosta de permanecer junto à costa, frequentando os locais onde encontra alimentação com facilidade. Normalmente deslocam-se em cardumes, compostos por algumas dezenas de indivíduos.
As taínhas são conhecidas pelos pescadores de mar, como peixes muito desconfiados e difíceis de pescar. Com efeito, pela forma como se alimenta, mais sugando do que comendo, este peixe exige fios finos e delicadeza na apresentação do isco.
A pesca à bóia é a forma mais convencional de capturar taínhas. Para tal, utiliza-se uma cana de passadores, entre os quatro e os seis metros de comprimento. Esta deve ser leve, robusta e com acção de ponta, ou seja bastante dura na sua acção. Também o carreto, bobinado com fio 0.18 a 0.22mm, deve ser pequeno, leve e dotado de uma embraiagem precisa, capaz de segurar os ímpetos deste vigoroso lutador.
As bóias podem ser de madeira de balsa de 0.5 a 1.5 gramas, se a pesca for feita num porto sem ondulação ou até às 15 gramas, se efectuada num local desabrigado, embora seja recomendável escolher os dias mais calmos, para pescar taínhas.
O fio do terminal do anzol, com cerca de trinta centímetros deve ser o mais fino possível, entre os 0.12 a 0.16mm. O anzol deve ser fino também e entre os nºs 8 e 12, consoante a desconfiança e o tamanho do peixe.
O isco mais utilizado para a taínha é a sardinha ou o carapau. Na sardinha deve tirar-se com cuidado a barbatana dorsal, ficando então os dois lombos de onde, com pequenos beliscos, se vai retirando a iscada. É errado cortar com uma faca!
Para melhores resultados é recomendável a utilização de engodo, feito com sardinha bem pisada num balde. Deve ser fino e lançado à água logo que cheguemos ao pesqueiro, para que vá atraindo as taínhas, dando-lhes confiança no alimento. Só depois devemos iniciar a pesca, aumentando a liquidez do engodo e diminuindo a frequência da engodagem.
Esta pesca é um óptimo desafio para quem gosta pescar fino e leve, o que não quer necessariamente dizer peixes pequenos...

Texto da minha autoria, publicado no Jornal "Correio da Manhã" de 9 de Junho de 2002

4 comentários:

S. Ferreira disse...

Em Olhão já comi diversas vezes uma espécie de tainha que os pescadores intitulam de "negrão". Acredita que gastronómicamente é excelente, contrariamente ao que eu pensava inicialmente.

S. Ferreira

Anónimo disse...

Na praia de Salema vi ums grupos de peixes nadando com a cabeça no aire. A vezes saltando. Pregunte a um pescador da aldeia y me disse que sao "Tenha" (talvez "Tainha"?) o "Mojo" (no se como escrever-o, "Moxo" o "Muxo"). Comem moscas - mortas flotando e vivos (por isso saltam?) Como e o nom de istos peixes? O sento, sou alemao, so falo e escrevo muito poco portugues.

Saludos
Uli
daimonides@uli-boesking.de

Raquel Borges disse...

tenho pescado algumas tainha de cana e sem chumbada. São realmente um peixe extremamente desconfiado. hoje larguei uma ao mar que as afastou todas. penso que deve ter largado escamas para a água

Anónimo disse...

Uma dica sobre o preparo das tainhas. Eu pesco aqui no Algés ou em Cascais. Levo apenas as muito grandes. Faço filetes, lombinhos sem pele. Deixo marinar no sumo de laranja azeda (pode ser aquelas que tem nas ruas bem azedas) sal e um bocadinho de alho. Frita na manteiga, nestas frigideiras anti aderente. Fica uma delícia!!!