
Encontrava-me a desfolhar a vossa revista nº1647 de 07 a 13 de Abril, quando deparo na secção intitulada “Ambiente – Há invasores em Portugal”, considerações sobre algumas espécies denominadas por “invasoras” e onde é referido um peixe, designado por “achigã”.
Se por um lado não surpreende, porque não se espera rigor científico no género de texto e revista, já a imensidade de disparates, especificamente sobre este “invasor de Portugal” em tão pequeno espaço, é de salientar. Não fosse o caso, nem estaria incomodar V. Excelência…
Efectivamente quem lê a peça, fica com a ideia que este peixe foi trazido ilegalmente, dentro de uma garrafa de litro e meio de água, para depois ser libertado à noite e sem que ninguém veja, “trazido pelo comércio e criadores, à boleia em barcos e aviões”.
Para que conste, o achigã foi estudado previamente, trazido, aclimatado e repovoado pelo Instituto Florestal, organismo da Direcção Geral de Florestas, no início dos anos 50 do século passado – há mais de 50 anos, portanto. Foi, porque a construção de grandes barragens ocorridas em Portugal na ocasião, provocou as consequentes alterações de habitat nos meios onde ocorreram.
De um rio de água correntes surgiu um novo ecossistema, completamente diferente, facto que só por si criou novas condições para, por um lado potenciar o desenvolvimento de umas espécies e ao mesmo tempo, minimizar a presença de outras.
Mas foi o Homem que provocou essa alteração, não o achigã, que fique bem claro!
Esta espécie nunca pode ser uma praga - como aliás se verifica na realidade, porque é canibal ou seja, pode controlar-se a ela própria. Além disso e ao contrário do referido, o achigã tem um predador e o pior de todos: O Homem que o persegue, captura ilegalmente nos períodos de defeso devido à insípida fiscalização e o comercializa nos restaurantes, algumas vezes de forma ilegal.
Adianto-lhe ainda que este peixe foi introduzido em mais de quarenta países do mundo, devido justamente à sua mais valia a todos os níveis: Limita o crescimento anormal de populações doutras espécies – algumas sem qualquer tipo de interesse, (estas sim, são pragas), origina aquilo que passou a chamar-se “Actividades de Natureza” e é mais recurso alimentar para as populações do interior. Além disso, auxilia o desenvolvimento regional, como por exemplo no sector de serviços e alojamento para os pescadores desportivos e familiares, comércio de artigos de pesca, ajudando a conter a fuga para os grandes centros urbanos, de onde normalmente vêm este género de textos e opiniões completamente alienadas da realidade.
É aliás recorrente, a origem desta desinformação: Os grupos pseudo-ecologistas, no seu puro fundamentalismo exacerbado, mais preocupados com os mitos que eles próprios criam para sua auto-promoção nos média, enquanto ignoram e fazem ”vista grossa” à realidade das gentes do interior, que lidam directamente com a Natureza.
No entanto, esquecem-se ou omitem a importância de outras espécies “invasoras” no seu próprio bem-estar, como a batata e o milho, só para dar dois rápidos exemplos. Aliás, é a incoerência o principal motivo porque já ninguém os leva a sério e são frequentemente alvo de chacota da população…
Catalogar o mosquito de transmissão do dengue da mesma maneira que o achigã, tal como tal se observa no texto, não tem qualquer comentário que me pareça “escrevível” num nível de linguagem que quero manter…
Para terminar, gostaria de acrescentar que a espécie referida no texto, bem como a imagem apresentada – o Micropterus dolomieu, nem sequer existe em Portugal. A espécie que existe entre nós, bem como nos restantes países onde se entendeu a importância deste peixe, é o Micropterus salmoides, bastante diferente do apresentado.
Aceite o meu e-mail como um desabafo e não como um direito de resposta:
- É que começa a ser preocupante a constante intoxicação da opinião pública sempre pelos mesmos grupos de pessoas, com disparates inclassificáveis…
Atentamente,
José Gomes Torres














Vista superior com um lay-out típico dum barco de pesca ao achigã













